Na Vida, tudo segue uma certa ordem. Primeiro as coisas são rápidas, depois terminam lentas. Primeiro são impulsivas, depois mais ponderadas. É assim na Vida e é assim no Karate. Por isso é que todos os movimentos devem ser controlados no final. É a isso que muitos chamam erradamente kime. Devemos ter autocontrolo sempre, tanto em kumite como em kihon e kata. Nestes dois, percebe-se pela fluidez dos movimentos, se começarem rápidos e terminarem leves e silenciosos como a pena que toca a superfície do lago. Tomem consciência de cada movimento, e pode ser que descubram novas formas de evoluir.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Treino diário
Mestre Gishin Funakoshi escreveu num dos seus princípios que "Karate é como água a ferver, sem calor volta a ficar tépida". Isto diz-nos que é necessário um treino constante e gradual, para que haja alguma ebulição na nossa alma.
Como me disse uma vez um grande mestre e amigo, ninguém se torna pianista a praticar apenas uma vez por semana. Para nos apercebermos dos pormenores, para enfrentarmos o dragão do quotidiano e para não deixarmos nunca a água arrefecer, é necessário uma prática constante. Isto pode ser um taiso ao acordar, manter o zanshin durante uma reunião, procurar o shizentai na paragem do autocarro, ou todos os anteriores.
Karate é uma busca vitalícia, e pode ser aplicado em tudo; aí reside a sua beleza.
Como me disse uma vez um grande mestre e amigo, ninguém se torna pianista a praticar apenas uma vez por semana. Para nos apercebermos dos pormenores, para enfrentarmos o dragão do quotidiano e para não deixarmos nunca a água arrefecer, é necessário uma prática constante. Isto pode ser um taiso ao acordar, manter o zanshin durante uma reunião, procurar o shizentai na paragem do autocarro, ou todos os anteriores.
Karate é uma busca vitalícia, e pode ser aplicado em tudo; aí reside a sua beleza.
sexta-feira, 25 de março de 2016
Chave Mestra
Existem incontáveis portas no Karate, e todos nos esforçamos por abri-las. Cada porta é uma kata, uma técnica, um sentimento, algo que não compreendíamos quando pela primeira vez baixámos ao chão e fizemos saudação. São estas portas que nos vão chamando, continuamente, ao longo dos anos. É normal sermos barrados e ficarmos anos a tentar abri-las.
O tsuki perfeito é uma dessas portas, e quem pode dizer que a abriu completamente?
Podemos passar a vida inteira a treinar para abrir a porta que temos à nossa frente, e depois de descobrirmos a chave, recomeçamos do início, face à porta seguinte.
Este é um Caminho, mas não haverá outro?
A chave mestra é a chave que abre todas as portas. A isto chamamos os princípios. No Karate existem vinte, escritos por Gishin Funakoshi, mas podemos tentar simplificá-los:
- Verticalidade - ligação com o Céu e com a Terra.
- Impulso - de avançar
- Ligação - com tudo, com todos.
Podemos passar a vida a coleccionar chaves, esperando que um dia isso nos permita um vislumbre da Chave Mestra, ou podemos ir forjando-a desde o primeiro dia, para podermos com ela abrir todas as portas que vamos encontrando. Um dos caminhos é longo e demorado, o outro parece-me bem mais rápido.
terça-feira, 8 de março de 2016
Mulheres Guerreiras
Em tudo existe uma dualidade, um masculino e um feminino. E esta dualidade inerente a toda a manifestação é algo profundo, que vai muito além das formas. Ainda que seja verdade que não há ninguém totalmente masculino nem totalmente feminino, continua a ser inegável que tais energias existem e é o seu equilíbrio que traz harmonia ao mundo.
Se antigamente as mulheres eram tão separadas da realidade que se transformavam em bonecas de exibição, também é verdade que sempre houve uma classe de mulheres guerreiras que desafiavam as tendências e, sem perder a feminilidade preciosa que as caracterizava, tinham a força e a vontade de lançar mãos às armas e proteger quem delas mais precisava. Exemplo disso são as onna-bugeisha, guerreiras japonesas e mestras em Naginata, lança com uma lâmina longa na ponta.
Era costume oferecer naginata às mulheres dos samurais como prenda de casamento, para que pudessem proteger a casa depois dos homens terem morrido em batalha.
Video demonstrando Naginata-jutsu.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
O dragão do quotidiano
Mais tarde ou mais cedo, todos os praticantes de Karate enfrentaram o mesmo dragão. Este dragão está já dentro de nós, e ainda que pareça adormecido, será a própria vida quotidiana que o fará despertar. Poderá acontecer num dia de chuva onde estejamos mais abatidos, ou num dia de sol especialmente inspirador. Poderá ser pela família, pelos amigos, ou pelo trabalho. Este dragão é a prova que devemos superar, pois se não o fizermos, este será o dia em que desistiremos do Karate.
A vida dá muitas voltas, e todos andamos à procura de algo. Se começámos a treinar Karate, foi porque ele nos trazia parte desse algo. Podemos achar que já vimos o suficiente, que agora o nosso caminho é outro, e ainda que isso seja uma escolha perfeitamente válida, será que é mesmo esse o caso? Não estaremos apenas a fugir do dragão que nos aguarda no caminho?
Há muitas provas no Karate, e elas costumam vir disfarçadas com as máscaras mais mundanas.
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| Smoky Dragon, por Disse86 |
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Na altura apropriada...
Muitas vezes ficamos frustrados ao barrarem-nos o acesso a algo para o qual julgávamos estar preparados. Quer seja uma técnica avançada ou conhecimento profundo, é normal que a acompanhá-los venha um manual com pré-requisitos e instruções. E para compreender esse manual, há ainda que saber ler primeiro. Tudo tem uma ordem, uma altura ideal, e ser exposto a uma verdade cedo demais pode trazer consequências graves para nós e para os outros. Podemos achar que já compreendemos o que nos foi ensinado e queremos transmiti-lo rapidamente, transformando uma verdade mal digerida em algo ainda pior; ou então podemos nem sequer compreender, e essa dúvida irá consumir-nos por dentro como um ratinho esfomeado. Há que ter paciência. E sempre que o nosso mestre se recusar a responder a uma das nossas pergunta, relembremos que é apenas para o nosso bem.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Ataque ou Defesa?
Quando perguntavam ao Mestre Murakami se o morote uchi uke é um ataque ou uma defesa, ele respondia simplesmente: Sim.
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| Morote Uchi Uke (karate-blog.net) |
Isto porque, no Karate, todas as defesas são também ataques. Se o adversário ataca e limitamo-nos a bloquear, então tudo continuará desequilibrado e o mais certo é ele aproveitar o impasse para atacar novamente. Se, pelo contrário, pouparmos movimentos e mostrarmos ao nosso adversário que foi um erro ter atacado, e que apenas queremos o seu bem, então a defesa transformada em ataque será eficaz.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Embrulhada
Todos temos um Caminho nesta vida, mas o caminho não segue livre de resistências. Os desafios que encontramos dão-nos direcção, mostram-nos o sentido, e muitas vezes adquirem forma de gente. Elas também têm o seu Caminho e devemos honrá-lo e reconhecê-lo como tal. É ao encontrar estes desafios em formato de gente que devemos lembrar-nos do kumite, não fosse a palavra significar união de mãos.
Quando um decide atacar e o outro decide defender, ambos avançam mas não chocam. As suas vontades atravessam-se mas continuam ligados um ao outro. Se, pelo contrário, baterem violentamente e ficarem ali embrulhados, demasiado próximos ao ponto de se sentirem desconfortáveis e em perigo, nem o ataque nem a defesa foram profundos o suficiente.
Devemos focar-nos no real, no que realmente importa, e atacá-lo com total honra e justiça. Se nos prendermos às formas que se nos apresentam, estaremos focados no vidro que compõe a janela, não na paisagem que se estende para lá do horizonte.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Código Bushido
Bushido (武士道) é uma palavra japonesa formada por três kanjis.
- 武士 (bushi), significa guerreiro, samurai
- 道 (dou) significa, o Caminho.
Juntos querem dizer o Caminho do Guerreiro Samurai mas, como à frente veremos, este é também o caminho do Cavalheirismo.
Nota: O kanji 道 (dou) é o mesmo encontrado nas palavra Karate-do, Kendo, Judo, etc...
O Bushido teve início nos tempos de paz vividos durante o xogunato de Tokugawa, embora haja quem afirme que este foi construído tendo como base uma tradição muito mais antiga. Indo beber à sabedoria Neo-confuciana, ao Budismo Zen e ao Xintoísmo, a conduta do Bushido é sinónimo de frugalidade, lealdade, mestria das artes marciais e honra até à morte.
A palavra foi inicialmente usada no Japão durante o século 17 e tornou-se popular após a publicação em 1899 do livro Bushido , A Ética dos Samurais e a Alma do Japão, de Nitobe Inazō.
É neste livro que encontramos o código do Bushido, simplificado através das oito virtudes pelas quais todos os guerreiros devem viver. São elas: Justiça, Coragem, Benevolência, Cortesia, Honestidade, Honra, Lealdade, Autocontrolo.
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| Gi - Justiça |
Gi (義) significa justiça, recta acção, integridade nas próprias decisões. Dar a cada um aquilo que lhe corresponde. Nem mais, nem menos. Gi é avançar decididamente e atacar quando é altura de atacar, e morrer quando é altura de morrer. Não desviar ataques nem atacar com demasiada força .
Ser justo é mais difícil do que parece, pois não se resume apenas a desempenhar acções boas ou acções más.
Justiça leva-nos até à harmonia presente no Caminho do Meio, aquele que se encontra equilibrado entre os dois abismos, o da total inacção e o da extrema reacção.
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| Yu - Coragem |
Yu (勇) significa coragem. Coragem para enfrentar o perigo, o desconhecido, o destino que nos aguarda, mas, acima de tudo, coragem para nos enfrentarmos a nós próprios, os nossos medos, as nossas limitações.
Como já nos dizia Confúcio:
Ver o que está certo e não o fazer, mostra falta de coragem.
Isto leva-nos a concluir que Coragem e Justiça vêm juntas, e é preciso Coragem para aplicar Justiça.
Sendo um tema tão importante e recorrente no Karate, não admira que já tenha sido tratado neste blogue.
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| Jin - Benevolência |
Jin (仁) significa benevolência, mas também quer dizer humanidade e caridade.
Jin é fazer o bem, o justo, o certo. Jin é dar antes de receber.
Segundo Confúcio, é na benevolência universal que se encontra a chave para o progresso social, e deve ser aplicada não apenas do súbito para o soberano, mas também ao contrário.
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| Reigi - Cortesia |
Reigi implica uma forma cuidada e uma maneira correcta de agir uns com os outros, não apenas quando na presença do sexo oposto.
Muito mais do que abrir a porta para a dama passar, ou receber educadamente o cavalheiro, na sua forma mais alta, Reigi aproxima-se do verdadeiro Amor.
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| Makoto - Sinceridade |
Como nos diz Confúcio, Sinceridade é o início e o fim das coisas. Sem sinceridade não haveria nada.
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| Meyo - Honra |
Meyo (名誉) significa Honra, e ela mostra-nos que o Bushido vai muito além do campo de batalha. Para um Samurai, manchar a sua honra seria um destino pior que a morte.
Meyo é um sentimento de dever, de dignidade, de justiça. Implica uma forma de pensar e agir que suscita o respeito e a admiração dos outros.
Meyo é muitas vezes associado à alma prudente, recatada, que age na medida certa. Reagir bruscamente à mínima provocação seria ridicularizado como sinal de irascibilidade.
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| Chugi - Lealdade |
Lealdade exige uma mente segura e resistente às ilusões do mundo; implica uma vontade e um serviço que transcendem o próprio ego.
A maior forma de Lealdade não é apenas relativa ao indivíduo, mas sim àquilo que ele representa.
Lealdade implica um compromisso da alma.
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| Jisei - Autocontrolo |
Jisei (自制) significa Autocontrolo. Nenhuma das outras virtudes seria aplicável se não existir em cada um uma vontade inabalável de controlar as próprias acções, pensamentos e desejos de forma a oferecer ao mundo apenas o melhor que há em nós.
Auto-controlo implica auto-conhecimento, a famosa frase "Conhece-te a ti mesmo" que devia ser acompanhada do "mas não te desiludas."
Auto-controlo relembra-nos da existência de uma mente superior, dotada dos valores mais altos, e de uma mente inferior, preocupada e com a sobrevivência. Ambas são essenciais, mas uma deve prevalecer face à outra.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Descomplicar
Encontrava-me a meio do treino e tudo corria normalmente. O sensei dava as vozes, o senpai ia ajudando, e nós fazíamos as técnicas o melhor que podíamos. E foi no meio de tanta normalidade que me apercebi que o que estava ali a acontecer era tudo menos vulgar. Ali estavam várias pessoas de diferentes idades e passados, amigas, unidas, treinando corpo, mente e espírito com o único propósito de serem melhores, mais simples, mais genuínas. Recebiam conselhos, ajudavam-se mutuamente, não havia aquela preocupação paralisante que acompanha a técnica mal feita; apenas uma simples e sincera vontade de melhorar.
É esta sensação de acordar, esfregar os olhos e ver o que realmente é - não o que achamos que é - que procuro explorar nesta publicação.
E, se tudo isto parecer distante e estranho para alguns, então experimentem focar-se brevemente apenas nas aparências. Karate é fixe; usamos roupas fixes; fazemos técnicas fixes. Perdoem-me a expressão, mas é esta inocência que quero expor. Esta percepção de criança que infelizmente vamos perdendo. Quando treinamos há já algum tempo, deixamos de ver as coisas da mesma maneira, e ainda bem que assim é, mas tentemos manter as complicações fora do dojo e não percamos a felicidade que sentíamos nos primeiros treinos.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Preparar, resistir e acompanhar
- Preparar relaciona-se com o Irimi, o estar atento e disponível para responder às necessidades. Implica uma sensibilidade elevada, que por trabalhar juntamente com uma mente rápida, é capaz de antecipar o que será necessário e responder prontamente da forma mais eficaz. Se vai ser preciso, eu já lá estou.
- Resistir é uma capacidade do corpo que, inspirada pela Vontade, não permite que ele fraqueje quando as circunstâncias se tornam adversas. É decidir o próprio destino, não aquele que nos foi imposto. É levantar a perna no mae-geri e baixar o pé somente quando a mente quer, não quando o corpo desiste.
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| Resistir |
- Acompanhar é seguir de perto as consequências das nossas acções. É estar ligado ao nosso companheiro depois de termos respondido ao seu ataque. Acompanhar é talvez o mais difícil dos três, pois a tendência será sempre querer passar para a actividade seguinte, e ainda que a certa altura isto seja necessário, não o devemos fazer cedo demais.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Sintonizar o ideal
O mestre exemplifica um pontapé e pede-nos para repetir. Nós repetimos, e ele diz:
"Não, não, mais baixo, assim expões-te muito."
Tentamos outra vez.
"Não, assim não consegues avançar."
E outra vez.
"Não, agora está novamente demasiado baixo, mas já está a ficar melhor."
E outra vez.
"Pronto, estamos a chegar lá, mas agora é preciso lançar mais."
"Não, não, mais baixo, assim expões-te muito."
Tentamos outra vez.
"Não, assim não consegues avançar."
E outra vez.
"Não, agora está novamente demasiado baixo, mas já está a ficar melhor."
E outra vez.
"Pronto, estamos a chegar lá, mas agora é preciso lançar mais."
Isto é o exemplo de uma conversa para ensinar a lançar um yoko-geri. O pontapé em si, aquele que tentamos alcançar, é um arquétipo, algo inatingível que toca a perfeição, e como temos ideia do que queremos, mas não sabemos ainda como lá chegar, vamos sintonizando o corpo para captar esse ideal, tentativa a tentativa, aproximando-nos cada vez mais, até que subitamente a música começa a fazer sentido e sabemos que estamos no bom caminho.
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| Sempre à procura do ideal. |
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Emoções e Sentimentos
Hoje em dia tratamos emoções e sentimentos como se fossem sinónimos, mas isto não é verdade.
- Uma emoção é uma resposta breve, intensa e involuntária. Como exemplos de emoções temos medo, raiva, alegria, tristeza, nojo e surpresa. As emoções também podem surgir na convivência com os outros, como é o caso da vergonha, da inveja, da simpatia, do orgulho ou da gratidão.
- Um sentimento é uma reacção duradoura, subtil e consciente. Nesta categoria encontramos o amor, a coragem, a honra, a justiça, a confiança, o perdão, e tudo aquilo que faz de nós Humanos.
Julgo que a interiorização desta distinção é essencial para o desenvolvimento de qualquer Karateca porque, se o que nos faz ir aos treinos são as emoções e não os sentimentos, mais tarde ou mais cedo a chama apaga-se, e acabaremos por desistir.
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| As cinco emoções básicas: alegria, raiva, medo, tristeza e nojo. Embora todas façam parte do ser humano, não podem ser elas a guiar as nossas acções. (Personagens do filme Inside Out) |
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
O início do Caminho
O início do Caminho é sempre difícil. Tentamos fazer coisas novas, em posições estranhas, sem qualquer noção da forma correcta de as fazer. E como poderia não ser difícil se a própria palavra nos diz que difícil é tudo aquilo que ainda não alcançámos?
No início, tudo parece correr mal, o corpo dorido não quer obedecer e somos constantemente corrigidos pelo nosso mestre. Podemos carregar às costas todos os fracassos, ou podemos transformar cada erro num degrau, e usá-los para chegar cada vez mais longe.
Qualquer início é um desafio de humildade, de coragem e de entrega.
No fundo, é como se fossemos exploradores de uma caverna escura, seguindo as indicações de um aventureiro mais experiente. Ele não pode percorrer o caminho por nós; pode apenas fazer os possíveis por se colocar no nosso lugar, vivenciando as mesmas dificuldades que nós, e procurando na sua experiência uma forma de as solucionar.
- Deves perguntar toda e qualquer dúvida. Certamente que não é tão parva como julgas.
- Errar é a única forma de aprender, habitua-te a isso.
- Segue as indicações cuidadosamente até descobrires o teu próprio estilo.
- Vai com a mochila vazia. Preconceitos só te vão atrasar.
- Confia no teu mestre, nos teus companheiros, e em ti próprio.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Chicotada
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| Mestre Tetsuji Murakami |
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Tsuki
Tsuki (突き) é o nome dado ao ataque básico no Karate. De punho cerrado, é uma estocada rápida como uma lança que parte do hara (centro), vai direito ao alvo e atravessa-o. No Shotokai, é recomendado que o punho seja o mais apertado possível, com o dedo médio flectido de forma a que o nó do dedo esteja ligeiramente mais protuberante que os restantes. Há quem deixe ainda o dedo indicador esticado para dentro da mão, de forma a impedir que os restantes dedos recuem no impacto.
O punho deve estar tão direito quanto possível, com a ponta do nó do dedo alinhada com o resto do braço pois qualquer inclinação fará com que ele se vire no impacto.
Tsuki pode ser feito de mil e uma maneiras, com nomes tão inspirados como Yama-tsuki (tsuki montanha), ou Kagi-tsuki (tsuki gancho) porém, o mais importante não é tanto a forma mas sim o que está por trás.
Um tsuki realmente eficaz é o que o próprio nome indica, uma estocada, e surge da fusão de dois opostos:
Total relaxamento do corpo + Total concentração do punho
Estaremos no bom caminho se compreendermos isto, mas, claro, depois faltará toda a componente energética, emocional, mental e espiritual. Sem isso, o tsuki não é um verdadeiro Tsuki, uma força que termina a violência e trás a paz.
Estaremos no bom caminho se compreendermos isto, mas, claro, depois faltará toda a componente energética, emocional, mental e espiritual. Sem isso, o tsuki não é um verdadeiro Tsuki, uma força que termina a violência e trás a paz.
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| Tsuki é uma estocada feita com uma lança imaginada. www.warriorway.net |
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Zanshin
Imaginem-se numa festa de casamento com crianças a brincar e muita agitação. Enquanto contam as últimas novidades aos vossos amigos, uma criança tropeça, vocês agarram-na antes que se magoe e, sem quebrarem o raciocínio, continuam a contar o resto da história. O estado mental necessário para conseguir isto chama-se Zanshin (残心), a "mente restante", e é essencial para o Karate.
Zanshin caracteriza-se por uma mente aberta, disponível, ligada a tudo. Para alcançar algo assim, é essencial começarmos por relaxar o corpo e serenar a visão. Os "olhos" da mente em zanshin não ficam presos pelas formas físicas mas vêem mais além, atrás, por cima, estão atentos a tudo. Em combate, é ela que nos permite enfrentar vários oponentes ao mesmo tempo.
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| Isto, por exemplo, não é zanshin. Se alguém surpreendesse o amável Daniel-san pelas costas, provavelmente não se conseguiria defender. |
O estado de zanshin é próprio da mente superior, aquela que usamos para expressar os valores mais altos como o Amor e a Coragem. É por isso que ela não deve ser perturbada pelas preocupações que surgem na luta do dia-a-dia.
Zanshin não é um conceito exclusivo do Karate, e existe em muitas outras artes marciais Japonesas como o Kyudo, o Kendo ou o Aikido. Por exemplo, no Kyudo, zanshin pode ser visto quando o praticante, após lançar a flecha, continua a acompanhá-la mentalmente através do alvo, para dentro da terra, até ao infinito.
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| Largada a flecha, resta acompanhá-la até ao alvo. |
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Coragem
Coragem e perigo costumam vir de mão dada - a coragem é aquilo que nos leva a enfrentá-lo, mas no mundo real, não costuma ser assim tão simples. Vejamos o exemplo no kumite. Colocamo-nos à frente do nosso oponente, relembramos a técnica, estamos atentos aos seus movimentos, e até podemos defender o ataque perfeitamente sem ter tido um pingo de coragem. Isto porque não tivemos que nos enfrentar a nós próprios. No kumite, a coragem vê-se nos pequenos pormenores, encarar com serenidade o olhar do oponente, manter a ligação com ele durante todo o combate, não apenas antes de ele atacar mas depois de defendermos.
Coragem exige entrega, confiança, humildade e constância.
É preciso imensa coragem para sermos verdadeiros connosco próprios, com o que sentimos estar certo, porque se fizermos isso, iremos inevitavelmente chocar com os outros. Como muitos já o disseram de maneiras diferentes "Se todos te adoram, algo está errado." Isto porque é impossível corresponder a todas as concepções que criaram de nós próprios.
Coragem é o que nos leva a enfrentar o erro, não quem errou. É saber separar o pecado do pecador, e ter a humildade e a sensibilidade para destruir o pecado e deixar o pecador intacto.
domingo, 22 de novembro de 2015
Respiração
É algo que fazemos constantemente mas, tal como comer, deve ser feito na medida certa. Respirar é uma das vias de entrada de energia no corpo e expulsão de dióxido de carbono. Quando as concentrações de dióxido de carbono aumentam, o sangue acidifica (pH < 7) e isto faz-nos querer respirar. É, portanto, o aumento de dióxido de carbono e não a falta de oxigénio que geram o impulso da respiração. Normalmente, este controlo é feito por uma parte primitiva do nosso cérebro (o tronco cerebral), mas nem sempre devemos confiar nele para tomar decisões porque ele não consegue prever quanto oxigénio vamos precisar antes de ser tarde demais.
Quantas vezes estávamos a treinar e pura e simplesmente esquecemo-nos de respirar? Quantas vezes chegámos ao fim de uma série de pontapés completamente sem ar? Isto acontece porque só depois do pH no sangue baixar é que sentimos a necessidade de respirar. Claro que a solução é simples, tomar consciência do esforço e respirar de forma controlada antes, durante e depois. Mas, da mesma forma que respirar pouco dá-nos dores de cabeça e, numa fase extrema, afecta-nos a visão e faz-nos ver sombras em vez dos nossos companheiros, respirar demais põe a cabeça leve, dá formigueiros nas extremidades e é igualmente desaconselhado.
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| Uma das técnicas de respiração no Yoga. |
sábado, 14 de novembro de 2015
Posicionamento estratégico
Uma vez ouvi dizer que o sítio mais seguro para uma zebra é junto de um leão que acabou de se alimentar. Isto é estranho, mas se pensarmos bem, tem uma forte ligação com o que se passa no Karate. Colocar-nos à frente do oponente é perigoso, estamos a incitar um ataque e teremos que responder quando ele sair. Se o ataque vier, avançamos para o defender, mas se fizermos apenas isso, e pararmos à frente do oponente, não só não terminámos o conflito, como agora o mais certo é sair um segundo ataque com a outra mão, um pontapé ou até mesmo uma joelhada. É por isto que o lugar mais seguro não é o que se encontra longe do oponente mas sim o que está em cima dele, atento a ele, preparado para responder a qualquer ataque que, caso venha, não terá tempo de ganhar velocidade porque todas as linhas rectas que ele poderia percorrer estão bloqueadas pelo seu próprio corpo. Sem linhas rectas, os ataques têm de sair curvos, e isso retira-lhes eficácia.
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| Ainda que provavelmente seja montagem, continua a ser uma boa imagem. |
Esta ideia de fechar o vazio que existe entre nós é essencial durante o kumite porque, como já foi aqui dito, qualquer vazio poderá ser rapidamente preenchido por um ataque. E a melhor forma de anular um ataque é encontrá-lo na origem.
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