quinta-feira, 3 de julho de 2014

Competição e Mutualismo

   Em Ecologia estudam-se as interacções das diferentes espécies umas com as outras e com o seu ambiente. Existem muitos tipos de interacções mas, para simplificar, podemos agrupá-las da seguinte forma: podem ser prejudiciais, benéficas ou neutras para a espécie em questão. E claro que esta simplificação também é válida para as interacções entre seres humanos. Parasitamos alguém quando nos aproveitamos dessa pessoa, seja em termos emocionais, monetários ou de qualquer outra forma, mas apesar de lastimoso, ao menos assim há alguém que sai a ganhar. O mesmo não acontece na competição. Aqui perdem os dois. Então porque é que toda a sociedade parece montada sobre esta relação? Desde o ensino ao trabalho e até no desporto, o objectivo parece ser sempre ficar à frente do parceiro do lado.

Competição - ninguém ganha, todos perdem.
   No Shotokai não participamos em torneios nem outras formas de competição por considerarmos que ela é prejudicial e contrária à filosofia do Karate. Basta ver os princípios do Mestre Gishin Funakoshi para percebermos que o Karate não é para ser aplicado num ringue mas sim fora dele, com toda a gente, durante a vida inteira.

Competição não é Karate, é selvajaria.

   Se precisamos de sobrepor-nos ao outro para nos sentirmos bem, então algo não está certo e devíamos pensar séria e friamente no porquê. Será falta de confiança ou auto-estima; necessidade de convencer os outros daquilo que não somos; falta de ligação connosco, com os outros, com mundo? Será que nos esquecemos que somos irmãos e estamos juntos nesta pequena pérola azul?

Mutualismo - baixar o ego para benefício de todos.
   Se no final ganharmos e todos os outros perderem, então de que serviu o nosso esforço? O ideal seria conseguirmos pôr de lado o nosso ego para transformarmos a competição em mutualismo, uma relação onde ambas as partes saem a ganhar.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Shizentai

www.karate.bielsko.pl
   Existem variadíssimas posturas no karate, mas a mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil, deve ser a Shizentai (自然体). A palavra significa simplesmente "postura natural do corpo" mas para chegar a esse estado mental é preciso muito. Só agora começo a perceber um pouco da parte mental, mas já posso falar do resto:

   Os pés devem estar bem assentes no chão, mais ou menos à largura dos ombros, paralelos e apontados para a frente. A força não deverá estar concentrada nem nos dedos nem no calcanhar. Algures na parte da frente é o ideal.
   As pernas devem estar ligeiramente arqueadas e contraídas.
   O tronco, os ombros e os braços devem estar totalmente relaxados, prontos para sair.
   Devemos focar a atenção não só no adversário mas também no que nos rodeia.
   Para não vacilar, ajuda bastante imaginar que a vida de alguém muito importante depende de nós.

   Shizentai pode também ser chamado de Hachiji-dachi e, apesar de haver pequenas diferenças de estilo para estilo, nomeadamente na posição dos pés e na contracção ou não dos braços, a função parece-me ser a mesma: Aguentar o pé, venha o que vier.


domingo, 29 de junho de 2014

Karate universal

Ryu, personagem do jogo Street Fighter,
em kokutsu-dachi a fazer soto-uke.
   Com mais de 16000 praticantes registados, fora os milhares que não o estão, o karate é das modalidades desportivas mais praticadas em Portugal. Isto explica-se pela proximidade que existe entre Portugal e o Japão. Ambos são povos de navegadores localizados nos extremos da Eurásia que sempre tiveram grandes potências como vizinhos. Se o Japão é o país do sol nascente, Portugal é o país do sol poente.

   Foi Portugal que introduziu o mundo ao Japão e o Japão ao mundo, e desde esse dia que a ligação entre as duas nações é forte. Podemos não falar a mesma língua mas temos muitas palavras em comum, e quando nos juntamos, sente-se uma certa cumplicidade.
   
   Mas esta atracção pelo karate não está limitada a Portugal e isso pode ver-se na cultura dos outros países. Não apenas no cinema, com o Karate Kid e todos os outros filmes de artes marciais, mas também nos jogos e outras formas de arte.

   Talvez esteja errado mas acredito que se pedisse a um português sem internet nem televisão para dizer o nome de uma arte marcial, ele provavelmente diria Karate.


sábado, 28 de junho de 2014

Yin-Yang

   Antes de mais, quero deixar bem claro que não sou um entendido na matéria e que tenho consciência que o assunto é extremamente complexo.
 
   Dito isto, é evidente a presença de forças contrárias e complementares em tudo nas nossas vidas, até mesmo no Karate. Todos os movimentos que fazemos têm presente o seu oposto, ainda que em pouca quantidade. Visualizem um soco rápido e forte. O corpo estremece e perde o equilíbrio se não recuarmos a outra mão ao mesmo tempo. No fundo, é como o próprio símbolo: um mar branco (soco) com uma gotinha negra (recuar a outra mão). Isto é equilíbrio, a tal acção e reacção, e ele está presente em tudo. Durante o taiso, quando rodamos os braços, não rodamos sempre para o mesmo lado. Rodamos duas voltas para a frente e duas voltas para trás. Uma das voltas tem energia Yin e arrefece o corpo, a outra tem energia Yang e aquece o corpo. Não acreditam? Então experimentem rodar sempre para o mesmo lado.

   A dualidade Yin-Yang está presente em tudo, até em nós próprios. Um karateka com excesso de energia Yang é demasiado agressivo, brusco, pesado. Um com excesso de energia Yin é demasiado delicado, elegante, esvoaçante. Nenhum destes excessos é bom, nem para eles nem para elas, por isso devemos procurar o nosso próprio equilíbrio, a tal gotinha no meio do mar.



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Água mole em pedra dura...

   Quem julga que a rocha é mais forte que a água é porque nunca viu o poder do mar. Fluidez e flexibilidade são qualidades de tudo o que está vivo. Dureza e inflexibilidade caracterizam o corpo morto. Preferem ser o rebento verde ou o ramo seco? Um cresce, aprende, propaga-se; o outro parte-se, cai e desaparece. Mas se assim é, então porque é que o karate hoje em dia é visto como uma sequência vazia de movimentos tão brutos que fazem com que o karateka se transforme numa máquina?


   Todas as técnicas deviam ser fluídas, como a onda que se esmaga contra a parede rochosa e adapta-se e envolve-a e recua para atacar uma vez mais. Da mesma forma que a onda não pára bruscamente, também nós não o deveríamos fazer porque somos mais parecidos com ela do que pensamos.



 Se procurarmos bem, descobriremos que somos fluidos, líquidos até. E se não acreditarem, recordem a percentagem de água que temos no corpo e vejam uns quantos vídeos em câmara lenta de alguém a levar um soco na cara.
   A dureza é ilusória. A verdadeira força esconde-se por trás de um estado mental adaptável, fluido e flexível.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Hikite

   No Shotokai, hikite é o nome dado à preparação que precede todas as defesas. Na minha opinião, há uma filosofia muito nobre por trás deste movimento. Fazer hikite antes de defender é oferecer a oportunidade ao nosso oponente de parar o ataque porque nós, genuinamente, não o queremos magoar. É como se alguém nos atacasse e em vez de desembainharmos a espada para o matarmos ali mesmo, apontássemos a espada à sua garganta enquanto o olhamos com compaixão e lhe disséssemos: amigo, pára agora se não vais morrer.

   O hikite é ainda mais necessário durante as viragens, quando acabámos de executar um ataque contra alguém e vamos virar-nos para trás das costas. Sem hikite, o que aconteceria é que faríamos um ataque às cegas que podia atingir de igual forma um atacante ou uma criança que estivesse de passagem.

   Hikite está directamente ligado ao segundo princípio que Gishin Funakoshi escreveu, a famosíssima frase "karate ni sente nashi" que significa "não existe primeiro ataque no karate". Se for bem feito, o hikite deverá ser suficiente para travar o confronto antes mesmo de ele começar.




terça-feira, 17 de junho de 2014

A importância do caminho

   Ecoa sanbon dentro do dojo; temos que fazer o mesmo ataque três vezes seguidas. O primeiro sai bem, forte e preciso; o terceiro vai longe, acompanhado de kiai; mas e o segundo? Bem, o segundo nem se deu por ele, de tão apressado que foi.

   Dizem que há dois tipos de pessoas mas neste caso há três:
  • Aqueles que apostam tudo no primeiro ataque mas depois vão morrendo aos poucos. São aquelas pessoas mais impulsivas que nunca estão bem no mesmo lugar e só querem começar coisas novas e fazer tudo ao mesmo tempo.
  • Os que só dão o máximo no último ataque porque têm uma inércia dos diabos mas quando vão lançados e focados no objectivo não há quem os agarre.
  • Aqueles poucos que conseguem viver no presente e por isso executam cada movimento como se fosse o último e terminam-no correctamente. São esses que vão crescendo sempre, não porque já vão lançados mas porque querem realmente dar o seu melhor em cada ataque.
   No fundo o mais importante não é começar, por mais difícil que isso seja; nem sequer alcançar o objectivo, aquele que ocupou a nossa atenção durante tanto tempo; mas antes não perder o caminho porque fomos impulsivos e quisemos recomeçar um caminho novo. Simplificando, devemos focar-nos no presente e honrar cada técnica com início, meio e fim.

Foguete com três estágios, cada um com início, meio e fim.