terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Embrulhada

   Todos temos um Caminho nesta vida, mas o caminho não segue livre de resistências. Os desafios que encontramos dão-nos direcção, mostram-nos o sentido, e muitas vezes adquirem forma de gente. Elas também têm o seu Caminho e devemos honrá-lo e reconhecê-lo como tal. É ao encontrar estes desafios em formato de gente que devemos lembrar-nos do kumite, não fosse a palavra significar união de mãos.

   Quando um decide atacar e o outro decide defender, ambos avançam mas não chocam. As suas vontades atravessam-se mas continuam ligados um ao outro. Se, pelo contrário, baterem violentamente e ficarem ali embrulhados, demasiado próximos ao ponto de se sentirem desconfortáveis e em perigo, nem o ataque nem a defesa foram profundos o suficiente.

   Devemos focar-nos no real, no que realmente importa, e atacá-lo com total honra e justiça. Se nos prendermos às formas que se nos apresentam, estaremos focados no vidro que compõe a janela, não na paisagem que se estende para lá do horizonte.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Código Bushido

   Bushido (武士道) é uma palavra japonesa formada por três kanjis.

  • 武士 (bushi), significa guerreiro, samurai
  • 道 (dou) significa, o Caminho.
   Juntos querem dizer o Caminho do Guerreiro Samurai mas, como à frente veremos, este é também o caminho do Cavalheirismo.

      Nota: O kanji 道 (dou) é o mesmo encontrado nas palavra Karate-do, Kendo, Judo, etc...

  O Bushido teve início nos tempos de paz vividos durante o xogunato de Tokugawa, embora haja quem afirme que este foi construído tendo como base uma tradição muito mais antiga. Indo beber à sabedoria Neo-confuciana, ao Budismo Zen e ao Xintoísmo, a conduta do Bushido é sinónimo de frugalidade, lealdade, mestria das artes marciais e honra até à morte.

   A palavra foi inicialmente usada no Japão durante o século 17 e tornou-se popular após a publicação em 1899 do livro Bushido , A Ética dos Samurais e a Alma do Japão, de Nitobe Inazō.

   É neste livro que encontramos o código do Bushido, simplificado através das oito virtudes pelas quais todos os guerreiros devem viver. São elas: Justiça, Coragem, Benevolência, Cortesia, Honestidade, Honra, Lealdade, Autocontrolo.

Curiosamente, das mil imagens que encontrei, todas se esqueceram do autocontrolo.

Gi - Justiça
    Gi (義) significa justiça, recta acção, integridade nas próprias decisões. Dar a cada um aquilo que lhe corresponde. Nem mais, nem menos. Gi é avançar decididamente e atacar quando é altura de atacar, e morrer quando é altura de morrer. Não desviar ataques nem atacar com demasiada força .

   Ser justo é mais difícil do que parece, pois não se resume apenas a desempenhar acções boas ou acções más.

   Justiça leva-nos até à harmonia presente no Caminho do Meio, aquele que se encontra equilibrado entre os dois abismos, o da total inacção e o da extrema reacção.




Yu - Coragem
   Yu (勇) significa coragem. Coragem para enfrentar o perigo, o desconhecido, o destino que nos aguarda, mas, acima de tudo, coragem para nos enfrentarmos a nós próprios, os nossos medos, as nossas limitações.

   Como já nos dizia Confúcio:
Ver o que está certo e não o fazer, mostra falta de coragem.

   Isto leva-nos a concluir que Coragem e Justiça vêm juntas, e é preciso Coragem para aplicar Justiça.

   Sendo um tema tão importante e recorrente no Karate, não admira que já tenha sido tratado neste blogue.



Jin - Benevolência
   Jin (仁) significa benevolência, mas também quer dizer humanidade e caridade.

   Jin é fazer o bem, o justo, o certo. Jin é dar antes de receber.

   Segundo Confúcio, é na benevolência universal que se encontra a chave para o progresso social, e deve ser aplicada não apenas do súbito para o soberano, mas também ao contrário.





Reigi - Cortesia
   Reigi (礼儀) significa Cortesia, e vendo bem os kanjis, percebemos que é a cerimónia do agradecimento, o acto do respeito.

   Reigi implica uma forma cuidada e uma maneira correcta de agir uns com os outros, não apenas quando na presença do sexo oposto.

   Muito mais do que abrir a porta para a dama passar, ou receber educadamente o cavalheiro, na sua forma mais alta, Reigi aproxima-se do verdadeiro Amor.



Makoto - Sinceridade
   Makoto (誠) significa Sinceridade, e sinceridade implica ser-se verdadeiro connosco, com os outros, com o mundo inteiro. Verdadeiros com o que sentimos, verdadeiros com o que pensamos, e para isso é preciso cada uma das outras virtudes.

   Como nos diz Confúcio, Sinceridade é o início e o fim das coisas. Sem sinceridade não haveria nada.






Meyo - Honra
   Meyo (名誉) significa Honra, e ela mostra-nos que o Bushido vai muito além do campo de batalha. Para um Samurai, manchar a sua honra seria um destino pior que a morte.

   Meyo é um sentimento de dever, de dignidade, de justiça. Implica uma forma de pensar e agir que suscita o respeito e a admiração dos outros.

   Meyo é muitas vezes associado à alma prudente, recatada, que age na medida certa. Reagir bruscamente à mínima provocação seria ridicularizado como sinal de irascibilidade.




Chugi - Lealdade
   Chugi (忠義) significa Lealdade. Lealdade a um líder mas também a uma causa.

   Lealdade exige uma mente segura e resistente às ilusões do mundo; implica uma vontade e um serviço que transcendem o próprio ego.

   A maior forma de Lealdade não é apenas relativa ao indivíduo, mas sim àquilo que ele representa.

Lealdade implica um compromisso da alma.





Jisei - Autocontrolo
   Jisei (自制) significa Autocontrolo. Nenhuma das outras virtudes seria aplicável se não existir em cada um uma vontade inabalável de controlar as próprias acções, pensamentos e desejos de forma a oferecer ao mundo apenas o melhor que há em nós.

   Auto-controlo implica auto-conhecimento, a famosa frase "Conhece-te a ti mesmo" que devia ser acompanhada do "mas não te desiludas."

   Auto-controlo relembra-nos da existência de uma mente superior, dotada dos valores mais altos, e de uma mente inferior, preocupada e com a sobrevivência. Ambas são essenciais, mas uma deve prevalecer face à outra.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Descomplicar

   Encontrava-me a meio do treino e tudo corria normalmente. O sensei dava as vozes, o senpai ia ajudando, e nós fazíamos as técnicas o melhor que podíamos. E foi no meio de tanta normalidade que me apercebi que o que estava ali a acontecer era tudo menos vulgar. Ali estavam várias pessoas de diferentes idades e passados, amigas, unidas, treinando corpo, mente e espírito com o único propósito de serem melhores, mais simples, mais genuínas. Recebiam conselhos, ajudavam-se mutuamente, não havia aquela preocupação paralisante que acompanha a técnica mal feita; apenas uma simples e sincera vontade de melhorar.

   É esta sensação de acordar, esfregar os olhos e ver o que realmente é - não o que achamos que é - que procuro explorar nesta publicação.

   E, se tudo isto parecer distante e estranho para alguns, então experimentem focar-se brevemente apenas nas aparências. Karate é fixe; usamos roupas fixes; fazemos técnicas fixes. Perdoem-me a expressão, mas é esta inocência que quero expor. Esta percepção de criança que infelizmente vamos perdendo. Quando treinamos há já algum tempo, deixamos de ver as coisas da mesma maneira, e ainda bem que assim é, mas tentemos manter as complicações fora do dojo e não percamos a felicidade que sentíamos nos primeiros treinos.

Isto é Karate, não faz mal sorrir.
Fonte: derbymartialarts.co.uk

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Preparar, resistir e acompanhar

   Preparar, resistir e acompanhar. Mente, corpo e alma. Todos as técnicas deveriam passar por estas etapas.
  • Preparar relaciona-se com o Irimi, o estar atento e disponível para responder às necessidades. Implica uma sensibilidade elevada, que por trabalhar juntamente com uma mente rápida, é capaz de antecipar o que será necessário e responder prontamente da forma mais eficaz. Se vai ser preciso, eu já lá estou.
Preparar
  • Resistir é uma capacidade do corpo que, inspirada pela Vontade, não permite que ele fraqueje quando as circunstâncias se tornam adversas. É decidir o próprio destino, não aquele que nos foi imposto. É levantar a perna no mae-geri e baixar o pé somente quando a mente quer, não quando o corpo desiste.
Resistir

  • Acompanhar é seguir de perto as consequências das nossas acções. É estar ligado ao nosso companheiro depois de termos respondido ao seu ataque. Acompanhar é talvez o mais difícil dos três, pois a tendência será sempre querer passar para a actividade seguinte, e ainda que a certa altura isto seja necessário, não o devemos fazer cedo demais.

Acompanhar

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Sintonizar o ideal

   O mestre exemplifica um pontapé e pede-nos para repetir. Nós repetimos, e ele diz:

"Não, não, mais baixo, assim expões-te muito."
 
   Tentamos outra vez.

"Não, assim não consegues avançar."

   E outra vez.

"Não, agora está novamente demasiado baixo, mas já está a ficar melhor."

   E outra vez.

"Pronto, estamos a chegar lá, mas agora é preciso lançar mais."

   Isto é o exemplo de uma conversa para ensinar a lançar um yoko-geri. O pontapé em si, aquele que tentamos alcançar, é um arquétipo, algo inatingível que toca a perfeição, e como temos ideia do que queremos, mas não sabemos ainda como lá chegar, vamos sintonizando o corpo para captar esse ideal, tentativa a tentativa, aproximando-nos cada vez mais, até que subitamente a música começa a fazer sentido e sabemos que estamos no bom caminho.

Sempre à procura do ideal.
  
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Emoções e Sentimentos

   Hoje em dia tratamos emoções e sentimentos como se fossem sinónimos, mas isto não é verdade. 

  • Uma emoção é uma resposta breve, intensa e involuntária. Como exemplos de emoções temos medo, raiva, alegria, tristeza, nojo e surpresa. As emoções também podem surgir na convivência com os outros, como é o caso da vergonha, da inveja, da simpatia, do orgulho ou da gratidão.
  • Um sentimento é uma reacção duradoura, subtil e consciente. Nesta categoria encontramos o amor, a coragem, a honra, a justiça, a confiança, o perdão, e tudo aquilo que faz de nós Humanos.

   Julgo que a interiorização desta distinção é essencial para o desenvolvimento de qualquer Karateca porque, se o que nos faz ir aos treinos são as emoções e não os sentimentos, mais tarde ou mais cedo a chama apaga-se, e acabaremos por desistir.

As cinco emoções básicas: alegria, raiva, medo, tristeza e nojo.
Embora todas façam parte do ser humano, não podem ser elas a guiar as nossas acções.
(Personagens do filme Inside Out)


   

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O início do Caminho

   O início do Caminho é sempre difícil. Tentamos fazer coisas novas, em posições estranhas, sem qualquer noção da forma correcta de as fazer. E como poderia não ser difícil se a própria palavra nos diz que difícil é tudo aquilo que ainda não alcançámos?

   No início, tudo parece correr mal, o corpo dorido não quer obedecer e somos constantemente corrigidos pelo nosso mestre. Podemos carregar às costas todos os fracassos, ou podemos transformar cada erro num degrau, e usá-los para chegar cada vez mais longe. 

   Qualquer início é um desafio de humildade, de coragem e de entrega.

   No fundo, é como se fossemos exploradores de uma caverna escura, seguindo as indicações de um aventureiro mais experiente. Ele não pode percorrer o caminho por nós; pode apenas fazer os possíveis por se colocar no nosso lugar, vivenciando as mesmas dificuldades que nós, e procurando na sua experiência uma forma de as solucionar.

   Indicações para os aventureiros do Caminho:
  • Deves perguntar toda e qualquer dúvida. Certamente que não é tão parva como julgas.
  • Errar é a única forma de aprender, habitua-te a isso.
  • Segue as indicações cuidadosamente até descobrires o teu próprio estilo.
  • Vai com a mochila vazia. Preconceitos só te vão atrasar.
  • Confia no teu mestre, nos teus companheiros, e em ti próprio.